Entrevista com Giovanni Gaja da vinícola Gaja

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Giovanni Gaja, da vinícola Gaja, esteve no Brasil para um evento da Importadora Mistral. Ele concedeu uma entrevista exclusiva para a DiVinho, falando do negócio da família, do clássico Barbaresco e da célebre variedade Nebbiolo, confira:

Giovanni Gaja
Giovanni Gaja

Gaja é uma vinícola com mais de 150 anos de tradição, conte um pouco dessa história.

Gaja começou em 1859, quando meu tataravô fundou a vinícola. Desde então, cinco gerações continuaram essa história. Uma característica de cada geração é que cada uma delas fez alguma coisa diferente. Não tinham medo de fazer as coisas de maneira diferente.

Em 1859, no Barbaresco, a produção de vinhos como conhecemos hoje não existia. Onde você é dono dos vinhedos, cultiva e colhe as uvas, vinifica e engarrafa o vinho e o vende.  Isso não existia.

Na época a produção era dividida em duas partes. Você podia ser um fazendeiro e ter vinhedos de Nebbiolo, cultivando suas vinhas por um ano e colhendo as uvas. Ou você fazia parte de uma grande vinícola, que não tinha terras, mas que comprava as uvas dos fazendeiros.

Giovanni Gaja era diferente. Gaja não foi fundada como uma vinícola, mas como um restaurante.  Giovanni também tinha um vinhedo de Nebbiolo. Nos melhores anos, ao invés de vender as suas uvas, ele estava vinificando o vinho. Colhendo as uvas, vinificando o vinho, engarrafando o vinho em grandes garrafões e vendendo-o em seu próprio restaurante.

Com o tempo, a maior parte dos clientes estava indo ao restaurante não para jantar, mas para comprar o vinho. Assim ele fechou o restaurante e focou unicamente na produção do vinho. Giovanni foi um dos primeiros a começar o processo de produção que conhecemos hoje.

A segunda geração foi a de Angelo Gaja, que se casou com um mulher muito importante na nossa família chamada Clotilda Rey. Ela era originalmente da França, com vinte e dois anos conheceu Angelo e com vinte e cinco anos mudou-se para o Barbaresco.

Clotilda não conhecia quase nada sobre vinhos, mas era muito inteligente e em um período curto conseguiu aprender tudo que era preciso saber sobre vinho. Ela foi muito importante, pois impulsionou seu marido Angelo a sempre melhorar a qualidade do vinho, comprando vinhedos e melhores equipamentos. Ela teve uma grande influência em meu avô Giovanni e meu pai Angelo.

A terceira geração é a do meu avô Giovanni. Ele acreditava fortemente no Barbaresco e na Nebbiolo.  Para ele o melhor vinho já produzido era o Barbaresco e a melhor variedade para produzir vinhos a Nebbiolo.

Ele entendeu que precisava comprar terras no Barbaresco. Seu maior objetivo na vida foi fazer o Barbaresco ser conhecido. Mas sessenta anos atrás esse era um pensamento bastante progressista. Pois naquela época quase ninguém conhecida Barolo e Barbaresco.

Naquele tempo as pessoas não tinham muito interesse em comprar terras no Barbaresco. Por essa razão, por trinta anos ele conseguiu comprar os melhores vinhedos de Nebbiolo localizados no Barbaresco.

Ele nos deixou uma grande herança com esses vinhedos, pois eles são a fundação de onde o Barbaresco se encontra hoje e também a fundação das linhas de vinhedos únicos de Costa Russi, Sorì Tildìn e Sorì San Lorenzo que produzimos no Barbaresco.

A quarta geração é a do meu pai, Angelo. É bastante difícil descrever meu pai, pois ele é inovador e tradicionalista ao mesmo tempo. Ele nunca teve medo de tomar decisões controversas. E na sua vida ele tomou algumas delas.

No final dos anos noventa ele foi o primeiro a introduzir Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc no Barbaresco. Foi também o primeiro a introduzir o uso de barricas em 1978. Em 1996 desclassificou todos os vinhedos de Barbaresco e Barolo para Langhe, pois adicionou uma maior porcentagem de Barbera. Também introduziu uma rolha mais longa, entre outros.

Apesar de todas essas decisões serem controversas na época, o tempo provou que elas foram as melhores decisões que ele poderia ter tomado pelo vinho. Todas as decisões foram tomadas com foco na inovação, mas sempre com respeito à tradição do Barbaresco e do Barolo.

A quinta geração é das minhas irmãs e eu. Rossana toma conta do mercado doméstico e eu e Gaia focamos mais no mercado internacional. Mas no negócio na família fazemos um pouco de tudo. Eu viajo, mas tento também estar bastante nos vinhedos, na adega, tentando tomar conta de todos os aspectos da vinícola.

Gaia, Giovanni, Angelo, Lucia e Rossana Gaja
Gaia, Giovanni, Angelo, Lucia e Rossana Gaja

Angelo Gaja foi um pioneiro na produção de vinhos de vinhedos únicos no Piemonte, como foi esse processo?

Meu pai, Angelo, começou a produção de vinhedos únicos juntamente com outros produtores, como Renato Ratti e Prunotto. Nosso primeiro vinhedo único foi Sorì San Lorenzo, uma propriedade adquirida pelo meu avô em 1964.

Em 1964, 1965 e 1966 San Lorenzo foi parte do blend do Barbaresco. Em 1967 nós percebemos que esse era um vinhedo que tinha possibilidades mais altas e ao invés de usá-lo para o Barbaresco decidimos apontá-lo como um vinhedo único.

A mesma coisa aconteceu em 1970 para Sorì Tildìn e em 1978 para Costa Russi. Então em 1988 tivemos o primeiro vinhedo único de Barolo com Sperss de Serralunga. E em 1996 com Conteisa de La Morra.

O cultivo de variedades francesas, como Cabernet Sauvignon, também foi outra inovação polêmica.

Como mencionei, meu pai introduziu variedades internacionais por vários motivos. Primeiramente, foi um jeito de tornar a Nebbiolo mais conhecida. Há quarenta anos ninguém conhecida Barolo e Barbaresco.

O paladar do consumidor internacional estava mais acostumado a variedades como Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Sauvignon Blanc, pois são cepas que você pode encontrar em quase qualquer lugar do mundo e adaptam-se a diferentes solos e climas.

Quando você considera Nebbiolo, ela é uma variedade indígena, que é bastante dirigida pelo clima e necessita de um solo bastante específico. Sem essas condições você não alcança os resultados desejados da Nebbiolo.

Em termo de gosto, quando você compara Nebbiolo e Cabernet Sauvignon está comparando duas uvas opostas. Cabernet Sauvignon é mais acessível, aberta e imediata. Quando você a serve na taça os aromas estão todos lá.

Já com Nebbiolo você abre uma garrafa de Barbaresco duas horas antes, decanta e serve na taça e ai você pode começar a sentir os aromas. Nebbiolo é uma variedade que exige paciência, mas que você é recompensado com o tempo.

Nos anos setenta ninguém conseguia entender a variedade, pois era um sabor que não haviam experimentado antes. Por isso, meu pai decidiu introduzir as variedades internacionais para mostrar a beleza do terroir de Langhe e também como uma maneira de introduzir a Nebbiolo.

Pois experimentando essas variedades internacionais, os consumidores iriam querem saber de onde vêm esses vinhos, conhecendo melhor o Barbaresco. E o que é produzido no Barbaresco? Nebbiolo.

Castello Barbaresco Gaja

Castello Barbaresco GajaComo Gaja transformou o Barbaresco em um verdadeiro ícone mundial?

Foi um trabalho em equipe, pois cada geração fez algo nesse processo. A primeira geração, de Giovanni Gaja, criou o vinho. A segunda geração focou em melhorar a qualidade.

Então meu avô, Giovanni, foi o que se concentrou em comprar os vinhedos do Barbaresco nos melhores locais. Criando uma marca facilmente reconhecível e focando em aumentar ainda mais a qualidade. Ele foi o primeiro que introduziu o conceito de não engarrafar os vintages que não representavam nosso estilo e nossa qualidade.

Isso, feito há sessenta anos atrás, foi um sacrifício econômico, e mais ainda, um sacrifício comercial. Naquela época poucas pessoas conheciam Barbaresco e Barolo. Decidindo não lançar o vinho, a marca ficou sem exposição por um ano. Mas isso foi feito para proteger a qualidade do vinho.

Meu avô fez Gaja começar a ser conhecida na Itália, realmente focando no mercado italiano. Então meu pai começou a trabalhar no mercado internacional e no final dos anos sessenta começou a viajar para fora.

Os primeiros mercados que selecionou foram Suíça, Alemanha e os Estados Unidos.  A exposição nesses mercados começou a aumentar a demanda pelos vinhos Gaja e a marca foi ficando mais conhecida.

Barbaresco
Barbaresco

Gaja comprou Pieve Santa Restituta em Montalcino. Como foi começar a produzir Brunello para uma família do Piemonte?

A razão pela qual adquirimos terras em Montalcino foi porque era um desafio para nós. Mas acima de tudo, porque Nebbiolo e Sangiovese são variedades bastante diferentes, mas que têm algo em comum.

Ambas são variedades indígenas, que você precisa ter terroirs, condições de solos e climáticas específicas para que elas alcancem os resultados que você está procurando.

Também são variedades que você precisa de conhecimento para cultivá-las. São duas variedades bastante acídicas e tânicas. Ambas tem um mercado de nicho, duas D.O. (Denominações de Origem) bastante específicas.

Nós pensamos que com mais de cento e cinquenta anos de experiência com a Nebbiolo, era hora de usar essa experiência e aplicar na Sangiovese.

Gaja também produz vinhos em Bolgheri com variedades internacionais.

Bolgheri é uma área que eu gosto particularmente. Por sua localização e pelo clima você pode cultivar qualquer coisa. Uma área bastante generosa, que é capaz de produzir vinhos opulentos, mas que ao mesmo tempo são bastante elegantes.

Vinhos que são acessíveis e fáceis de beber quando são jovens, pois essa é uma característica das variedades internacionais. Mas que também tem um ótimo potencial de envelhecimento.

Em 1996, quando adquiridos a propriedade, tínhamos um conhecimento limitado da área. E com dois a três anos já conhecíamos o terroir, o solo, as variedades, e vimos uma melhoria continua.

Vinhedos Sperss
Vinhedos Sperss

Como é para você assumir o papel de seu pai, Angelo Gaja, nos dias de hoje? Sentiu algum peso nos ombros?

Sim, é bastante pressão, mas meu pai é meu pai. Ele tem uma personalidade e seu jeito particular de fazer as coisas. Eu não tenho de imitar o meu pai. O que eu sinto é que posso tomar inspiração do meu pai e seguir meu próprio caminho.

Eu faço as coisas da minha maneira, porque se eu tentar ser como o meu pai eu nunca serei como ele. Ele é uma pessoa singular. Eu posso me inspirar e aprender com ele. Uma coisa sobre o meu pai, ele é bastante generoso, sempre disponível a ensinar. E não somente eu, mas também as minhas irmãs, transferindo esse conhecimento para nós.

Essa é uma grande vantagem que nossa família tem. Pois meu pai não é como outros no negócio do vinho. E não somente no mundo do vinho, mas pessoas que quando precisam deixar os filhos tomar conta tendem a ser mais controladoras e manter tudo para si mesmas.

Existe uma nova geração de jovens que estão descobrindo os prazeres dos vinhos, como é atender esse público?

Primeiramente, Gaja não é só o Barbaresco ou vinhos de vinhedos únicos. Nós temos diferentes linhas de vinhos. Temos vinhos introdutórios, como Rossj-Bass, Sito Moresco e Barolo DaGromis do Piemonte. Ou Promis e Vistamare da Toscana e o Brunello di Montalcino.

Todos os esses vinhos fazem parte da linha introdutória Gaja, pensados para restaurantes e também para atrair novos consumidores. Pois, se alguém nunca ouvir falar de Gaja é muito difícil que comece com o Barbaresco, que tem um preço mais alto.

Mas ele pode começar com Sito Moresco ou Barolo DaGromis, por exemplo, que são vinhos de uma faixa de preço mais acessível. Como mencionei, são vinhos para atrair novos consumidores, que após experimentarem esses rótulos podem ir para o Barbaresco e para os vinhos de vinhedos únicos. É uma pirâmide.

Sito Moresco, em particular, é pensado para ser uma introdução à variedade Nebbiolo. Um vinho que pode ser bebido ainda jovem, uma versão mais fácil da Nebbiolo. No mesmo estilo na linha Ca’ Marcanda, temos Promis. Um vinho que você pode começar e se gostar passar para Magari, gostando do Magari pode experimentar Ca’ Marcanda, que está no topo da linha.

Na Pieve Santa Restituta é a mesma coisa. Brunello é um rótulo que você pode experimentar ainda jovem e se gostar pode seguir para os vinhos de vinhos de vinhedos únicos.

Outro ponto importante, a nova geração que começou a apreciar os vinhos tem que diferenciar o vinho de outros tipos de bebidas alcoólicas. Pois o vinho não é um licor. São duas coisas separadas.

Você bebe vinho para celebrar ou porque teve um longo e estressante dia e chegando em casa você toma uma taça de vinho e relaxa. Ou você bebe vinho quando está com seus amigos e quer dividir essa garrafa com essas pessoas.

Você vai a um clube e não bebe vinho, você bebe uma bebida alcoólica. Mas esse tipo de coquetel é diferente. Um tipo de álcool que não é natural, é destilado. Já o álcool que é criado no vinho é natural, vem da fermentação, das leveduras, um dos processos mais naturais.

 

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