Entrevista com Klaus Schröder da Viña AltaCima

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Viña AltaCima é uma renomada vinícola chilena, um projeto pessoal do prestigiado enólogo Klaus Schröder. Ele concedeu uma entrevista exclusiva para a DiVinho, falando de sua trajetória como enólogo, do terroir de Vale de Lontué, e dos grandes rótulos da Viña AltaCima, como Icono Ataraxia, AltaCima 6.300 e AltaCima 4.090, confira: 

Klaus Schröder
Klaus Schröder

Você chegou ao Chile em 1965, trabalhando em várias vinícolas de renome antes de iniciar seu projeto pessoal, a Viña AltaCima. Conte um pouco dessa história. 

Foi uma jornada enológica especialmente excitante, coincidindo com um período de profunda mudança na viticultura chilena.

Na década de sessenta os chilenos consumiam, em média, 55 litros per capita ao ano. Os vinhos brancos eram oxidativos e sem caráter frutado. Os tintos eram genéricos, oriundos de mesclas de todo o tipo de uvas. Esses vinhos eram fermentados “quentes”, perdendo seus aromas e caráter frutado, que, expelidos durante a fermentação, “vagavam” pelos corredores das adegas.

As exportações eram praticamente inexistentes, exceto algumas exceções honrosas. 95% do vinho era comercializado em galões de cinco ou dez litros.

Os anos setenta trouxeram uma mudança na mentalidade e na cultura dos consumidores. Não era mais procurada aquela festa inebriante. As famílias, ao invés de ter oito crianças, começaram a ter apenas dois filhos e, também, mais escolaridade.

Assim, os viticultores começaram a focar na exportação. Buscando descobrir o que desejava o consumidor do hemisfério norte. 

Minha formação enológica de clima frio me foi especialmente útil. Esse novo mundo buscava aromas que lembrassem as uvas. As adegas foram transformadas com equipamentos de controle de temperatura, tanques de aço inoxidável e barricas de carvalho francês e americano. 

Vivemos um boom sem precedentes nas exportações. Em alguns anos as exportações cresceram até 40%. As instalações também precisavam crescer e se adaptar, em uma modernização constante e eletrizante.

As vinícolas em que trabalhei me permitiram viajar e conhecer novas realidades. Em um dado momento, fomos os mais inovadores e criativos.

Hoje, o Chile exporta 70% de sua produção. Os 30% restantes são bebidos em moderação, com um consumo per capita que caiu de 55 para 18 litros ao ano.

Durante essa jornada, paralelamente, fui plantando nos vinhedos AltaCima as variedades mais desejadas. Enquanto sonhava em ter minha própria vinícola e uma garrafa que refletisse essa jornada apaixonada e edificante.  

Essa jornada permitiu o nascimento de alguns ícones que forjaram a imagem de nossa viticultura. Como o pioneiro Don Maximiano da Viña Errazuriz e o maravilhoso Casa Real Reserva Especial da Viña Santa Rita.

Olhando para trás, agradeço a atenção generosa que recebi e que me abriu muitas portas. Permitindo, também, deixar uma marca nas vinícolas onde trabalhei e também em meus colegas de profissão, seja no trabalho diário ou presidindo a Associação de Enólogos do Chile, um cargo que tive muito orgulho de preencher. 

Adega
Adega

Os vinhedos da Viña AltaCima estão em uma posição privilegiada no Vale de Lontué. Fale um pouco desse renomado terroir. 

Desde que cheguei ao Chile, no ano de 1965, tive a oportunidade e a sorte de visitar todas as regiões vitivinícolas do país, desde Copiapó, no norte, até Mulchen, no sul, abrangendo mais de mil quilômetros!

Como um bom alemão, acostumado a temer as chuvas de verão que colocavam em risco a saúde das videiras, fiquei maravilhado com o clima mediterrâneo da zona central do Chile, com verões secos e outonos amigáveis.

Entretanto, como eu não queria produzir vinhos pesados ​​e muito alcoólicos, tinha medo do excesso de calor. Minha formação é da escola europeia clássica, nas décadas de sessenta e setenta. Antes do boom do vinho nos EUA, que levou, lamentavelmente, a elaboração, por grande parte da indústria mundial, de vinhos alcoólicos, com muito açúcar residual, muita madeira e sem nada de frescor.  

Foi nesse cenário que, em 1974, eu e minha esposa, Katharina, encontramos  um belo campo ao sul de Curicó. Um estreito que une a Cordilheira dos Andes à Cordilheira da Costa, com brisas frescas do sul, conduzindo pelo rio Lontué/Mataquito, o ar úmido do mar.

Esse ar úmido gera muitas manhãs nubladas e promove uma redução nas temperaturas médias e na acumulação do calor. Mas, ao mesmo tempo, mantém as tardes quentes,  permitindo a correta maturação dos taninos. 

Hoje, com vinhedos de várias décadas, conseguimos produzidos vinhos tintos redondos, com taninos maduros, mas com um teor alcoólico agradável, de 12,5° a 13,5°. São rótulos frescos e com boa vitalidade.

Vinhedos
Vinhedos

As variedades tintas, plantadas durante a década de setenta, estão em sistema de pé-franco. Como esse fato influencia na qualidade dos vinhos? 

Os vinhedos em pé-franco permitem uma identidade varietal pura, sem a interferência do porta-enxerto. Acredito que existe uma diferença considerável na pureza das cepas não enxertadas. 

Icono Ataraxia, como o próprio nome já diz, é o vinho ícone da Viña AltaCima. Como é produzido esse grande rótulo?

Icono Ataraxia surgiu há onze anos, na safra de 2009, como um experimento para ver até onde nosso terroir poderia chegar.  Do mosto final de sete diferentes tanques de Cabernet Sauvignon, Syrah, Carménère e Petit Verdot, antes da prensagem, juntei sete barris com o líquido mais concentrado de cada um. 

O resultado foi um vinho de coloração vermelha azulada, com grandes taninos e caráter intensamente frutado, com aromas de cassis e pimenta. A composição do assemblage me tomou vários dias. Todos os dias dávamos o aval para uma garrafa que seria melhorada no dia seguinte.

Assim restaram 1.125 litros de um vinho com grande caráter que, mesmo com um ano de estágio no carvalho, continuava vivo e jovem, esperando o aparecimento de um sucessor. 

Tanques de aço inox
Tanques de aço inox

A gama AltaCima 6.300 conta com um Ensamblaje tinto com excelente relação qualidade-preço.  

6.330 Ensamblaje K é o vinho que eu sempre quis fazer e foi precisamente a primeira coisa que fiz quando iniciei a Viña AltaCima em 2001. É um grande assemblage de uvas tintas, equilibrado, com álcool moderado e madeira bem integrada. 

É um rótulo que não precisa ter um preço alto para ser reconhecido. Eu queria fazer um ótimo vinho que pudesse ser apreciado por pessoas normais. Sempre desconfiei das despesas excessivas em marketing que encarecem os vinhos. Acredito que a qualidade não precisa custar grandes somas de dinheiro, pelo menos no vinho, onde o maior trabalho é oriundo do vinhedos.

Hoje, a linha 6.300 conta com dois novos rótulos. Um maravilhoso Sauvignon Blanc, oriundo de vinhedos plantados na Cordilheira dos Andes, ao pés do vulcão Peteroa. E um dos meus mais amados “filhos”, o Late Harvest, elaborado com uvas Gewürztraminer plantadas em frente à nossa casa.  

Fale um pouco da gama AltaCima 4.090.

A origem desta linha é um pouco engraçada. Na minha cabeça, havia apenas espaço para o 6.330 Ensamblaje K. AltaCima havia sido concebida como uma vinícola de apenas um vinho, mas meus amigos reclamaram de não haver um vinho branco, um Merlot ou um Carménère.

Assim, fui fazendo pequenos lotes desses pequenos “intrusos” para acalmar a pressão dos amigos. No fim das contas, esses “intrusos” acabaram me seduzindo. O Chardonnay e o Merlot foram reconhecidos como filhos “legítimos”, depois vieram Syrah e Cabernet Sauvignon, terminando com as estrelas da linha, Carménère e Gewürztraminer

Dadas as circunstância de seu nascimento, os rótulos da linha 4.900 foram definindo a si mesmos. Mas, hoje eu posso dizer que eles representam a melhor expressão das seis principais variedades plantadas em nossos vinhedos. 

Sãos vinhos que expressam muito bem as características de cada uva, com mínima intervenção, e que seguem a linha da AltaCima, sendo frescos, com madeira não invasiva e agradáveis de beber.

Adega
Adega

Existe uma nova geração de jovens que estão descobrindo os prazeres dos vinhos, como é atender esse público?

Sempre quis evitar vinhos pesados ​​e cansativos. Mas era difícil explicar o estilo da AltaCima para a geração que aprendeu a beber vinho nas décadas de oitenta e noventa. Um período em que os vinhos eram elaborados pensando no mercado americano.  

Me sinto muito mais confortável com a atual geração de jovens que estão começando a apreciar as nuances do vinho. Hoje é mais fácil falar dos rótulos refrescantes, que convidam a tomar mais uma taça. 

Quais rótulos da Viña AltaCima você recomenda para aqueles que estão conhecendo a vinícola? 

Dois vinhos da AltaCima que são meu favoritos e que melhor refletem a identidade da vinícola são o 6.330 Ensamblaje K, elaborado a partir de uma seleção das melhores uvas tintas de cada safra, e 4.090 Gewürztraminer, produzido com a uva Gewürztraminer, uma variedade que me lembra muito da minha juventude e que plantei em nossa propriedade no ano de 1993. 

Me deixa muito feliz que conseguimos estabelecer um estilo próprio, sem tentar copiar o que é encontrada na França ou na Alemanha.  

 

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