Dirceu Vianna Junior é o único brasileiro a ostentar o título de Master of Wine. Ele concedeu uma entrevista exclusiva para a DiVinho,  falando de sua impressionante carreira, do cenário vitivinícola do Brasil e muito mais, confira! 

Dirceu Vianna Junior
Dirceu Vianna Junior

Você é o único Master of Wine do Brasil, um feito realmente impressionante. Como é o processo para conquistar esse título?

Para ser admitido no Instituto o candidato deve ser indicado por outro Master of Wine e passar por avaliações escritas. 

Centenas de pessoas inscrevem-se anualmente e cerca de quarenta são selecionadas para iniciar o programa. Ao longo do processo, o candidato deve acumular conhecimento detalhado sobre todas as áreas da indústria. 

Quando iniciei o processo eu era comprador de uma empresa que importava e distribuía vinhos na Inglaterra. Degustava centenas de rótulos semanalmente, naturalmente, já estava razoavelmente bem preparado para os desafios das provas às cegas.

Por outro lado, meu domínio da viticultura era limitado. Para obter conhecimento teórico li vários livros e para ganhar conhecimento prático visitei vinhedos em várias partes do mundo. 

Além disso, investi tempo trabalhando em vinhedos para acumular experiência prática e os conhecimentos técnicos necessários. O mesmo aconteceu com relação à parte prática de enologia. 

Além de visitar centenas de produtores, tive a sorte de passar uma temporada com um dos melhores enólogos da África do Sul e outra em uma famosa propriedade em Bordeaux. 

A avaliação em si dura uma semana e consiste em três provas às cegas de doze vinhos cada, nas quais o candidato é desafiado a responder uma série de perguntas sobre métodos de vinificação, identificar as uvas, região de origem, safra, avaliar a longevidade, qualidade etc. 

A parte teórica consiste em quatro etapas, com perguntas sobre viticultura, enologia, marketing e atualidades ligadas à indústria de vinhos. 

O nível de aprovação é de cerca de 5% e o processo pode levar vários anos. No meu caso, eu iniciei o processo em 2000 e depois de alguns tropeções, lágrimas e muito estudo, conquistei o título em 2008. 

The Institute of Masters of Wine
The Institute of Masters of Wine

Sua formação inicial é em Engenharia Florestal e Direito. Por que decidiu mudar de área e trabalhar com vinhos?

A vida me levou para esse caminho quando decidi viver na Inglaterra.

Já no início dos anos 90 fiz um curso de hotelaria no Westminster College em Londres. Havia um módulo sobre vinhos e gostei do tema, pois além de vinho em si, incluía história, geografia, ciência, etc. 

Após alguns anos nesse setor e visitas às regiões produtoras de vinho da Europa tive certeza que estava em um caminho interessante. 

Você viajou muito em sua carreira, desde Champagne até Napa Valley. Qual é, na sua opinião, a diferença entre os vinhos do Velho e do Novo Mundo?

De forma geral, os vinhos do Velho Mundo possuem mais estrutura, são menos exuberantes e são comercializados usando suas respectivas Denominações de Origem. 

Os vinhos do Novo Mundo são mais alegres, frutados, fáceis de apreciar e de entender, pois usam como referência as uvas que os compõem. 

Dito isso, em função da evolução em termos de conhecimento e tecnologia, juntamente com as alterações climáticas, as diferenças organolépticas entre esses dois campos estão diminuindo cada vez mais. 

Hoje, é possível cometer enganos sobre essas diferenças facilmente. Está cada vez mais difícil conseguir estabelecer a origem de um vinho durante uma degustação às cegas através do seu perfil. 

Napa Valley
Napa Valley

O Brasil, até pouco tempo atrás, era conhecido por produzir vinhos mais simples, para consumo do mercado interno, mas isso vem mudando. Qual a sua opinião acerca do cenário atual do mercado vitivinícola nacional?

Existe uma tendência positiva. 

A qualidade está cada vez melhor, devido ao aprimoramento técnico de alguns profissionais e certos fatores climáticos.

Acredito que se os produtores fossem mais abertos para trocar conhecimentos entre si e com outros profissionais internacionais essa evolução poderia ser muito mais rápida. 

Você colabora com vinícolas na Europa, mas não no Brasil. Por qual motivo? 

Eu tenho projetos em vários setores da indústria desde a produção, comercialização, comunicação, marketing, etc. 

Para evitar qualquer conflito de interesse, eu opto por fazer projetos em setores diferentes e países distintos. 

No momento, atuo em projetos nos Estados Unidos, Canadá, Áustria, Portugal, Espanha, Croácia e no Brasil, para uma empresa chamada 4U Wines. 

Espero um dia poder colaborar com alguma vinícola brasileira. Basta encontrar um projeto que conte com pessoas que compartilhem minha filosofia e que eu julgue possível adicionar minha experiência técnica e comercial para o benefício da empresa.

Os produtores brasileiros, a exemplo dos da Califórnia, têm um mercado de consumo suficientemente grande na porta de casa, portanto não precisam se esforçar para exportar.

Caso isso se torne necessário, acredito que uma colaboração com alguma empresa mais ambiciosa poderá acontecer.

Vinhos Brasileiros
Vinhos Brasileiros

O brasileiro ainda tem um consumo per capita de vinho muito baixo, quando comparado a países da Europa, como Portugal, por exemplo. Qual é a melhor maneira, na sua opinião, de incentivar o consumo do vinho em nosso país?

Essa é uma excelente pergunta, mas exige uma resposta longa e complexa, pois cada elo da corrente tem seu papel a fazer. 

Para simplificar a resposta, um fator decisivo seria fazer os governantes do país entenderem que vinho, além de cultura, é uma bebida saudável e deve ser tratado como alimento, a exemplo do que acontece na Europa, e não como um artigo de luxo que é taxado excessivamente.

Mesmo observando de longe eu suspeito que um forte lobby das grandes empresas de cerveja tem algo a ver com isso. 

Você contribui para importantes publicações no mundo do vinho, como a Decanter. Como é seu trabalho na revista? 

Eu tenho tido o privilégio de poder compartilhar conhecimento com os leitores da revista Decanter há mais de uma década. 

Tenho orgulho de contribuir para essa publicação que é uma das mais respeitadas no mundo. São grandes profissionais, mas ao mesmo tempo são pessoas amigáveis e divertidas. 

Inicialmente, eu era convidado para escrever sobre temas e degustar vinhos sul-americanos. O meu desafio ao longo dos anos foi demonstrar que meu conhecimento é amplo o suficiente para escrever sobre qualquer outra região produtora do mundo. 

Não foi uma tarefa fácil, pois eles gostam de ter seus especialistas em determinadas regiões, mas gradualmente fui escrevendo sobre assuntos globais. 

Tive a honra de selecionar os 100 melhores vinhos de 2019, conduzir palestras e degustações sobre temas variados e meu trabalho mais recente, em janeiro, foi um artigo sobre tendências para o ano de 2021. 

Demorou alguns anos, mas fico contente em poder demonstrar um conhecimento global e não apenas temas relacionados com a América do Sul.  

Decanter
Decanter

Ainda é muito comum a falácia de que “vinho bom é vinho caro”.  É possível encontrar bons vinhos com preço convidativo? 

Com absoluta certeza. Uma garrafa de vinho não precisa ser cara. Em todas as faixas de preço é possível encontrar vinhos de bom custo e benefício, até mesmo quando consideramos os Grand Cru Classé. 

Durante grande parte da minha carreira, buscar vinhos de excelente qualidade e preços acessíveis foi um dos principais desafios e também a parte do trabalho que me dava mais prazer. 

Para isso é preciso disciplina, vários contatos, muita degustação comparativa às cegas e saber tomar decisões racionais e não se deixar levar pela parte emocional. 

É preciso aprender a resistir ao mal hábito de fazer negócio simplesmente pelo fato de ter um envolvimento pessoal com um produtor. O importante é fazer um trabalho diligente, no qual o consumidor é o principal fator na hora da decisão.  

Quais são seus vinhos brasileiros favoritos? 

Respeito o trabalho da Cave Geisse, Familia Pizzato, Vinícola Thera e da Guaspari, pois são capazes de atingir bom nível de qualidade com certa consistência ano após ano, mas acredito que existem outros produtores que possuem capacidade de juntar-se a esse grupo. 


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